Erro

Amores impossíveis: Quando o complexo materno é o verdadeiro parceiro na relações

Postado por Daniela Dantas Furlaneto em 19/08/2025 16:30


Na psicologia analítica de Carl Jung, o **arquétipo da mãe** é uma das imagens mais poderosas e ambivalentes da psique humana. Ele representa tanto o cuidado e a nutrição quanto o risco do sufocamento e da estagnação. Quando esse arquétipo atua de forma inflada ou inconsciente, especialmente na ausência da função paterna simbólica, o vínculo entre mãe e filho pode se transformar em uma prisão emocional. Segundo Jung, o **complexo materno** surge quando a imagem da mãe — real ou simbólica — domina o inconsciente do indivíduo, impedindo o desenvolvimento da autonomia. No caso de mães que não se separam emocionalmente dos filhos, há uma tendência de **projeção do animus** (aspecto masculino da psique feminina) sobre o filho, fazendo dele um substituto inconsciente do parceiro ausente ou idealizado. Esse tipo de vínculo impede que o filho desenvolva um ego forte o suficiente para enfrentar o mundo por conta própria. A separação simbólica — essencial para a individuação — não acontece. O filho permanece preso à imagem da mãe como fonte única de afeto, identidade e sentido. A mãe que não se torna “desnecessária” em algum momento da vida do filho impede que ele deseje fora dela. O amor, nesse caso, deixa de ser vínculo e vira prisão. O filho não se separa porque teme magoar, abandonar ou "destruir" a mãe. E a mãe, por sua vez, não permite que o filho vá, pois isso significaria ter que encarar a sua própria solidão, seu vazio e fazer algo com isso. Esse enlaçamento precoce pode gerar adultos com dificuldades em: - Sustentar relações amorosas sem culpa ou idealização; - Tolerar o desejo do outro como diferente do seu; - Viver a sexualidade sem conflitos entre prazer e punição; - Reconhecer a mulher como sujeito de desejo, e não como extensão da mãe. Para o filho que cresceu sob o domínio de um vínculo fusional com a mãe, o afeto vem carregado de dúvidas e dívidas. Ele não ama livremente — ama com culpa. Sente-se responsável pelos sentimentos da mãe, como se sua felicidade dependesse dele, e qualquer tentativa de afastamento fosse uma traição. A separação, que deveria ser um movimento natural da vida, torna-se um ato doloroso, quase violento. Esse filho, muitas vezes, não vive — ele repara. E essa lógica afetiva se estende às suas relações amorosas: ele projeta o complexo materno nas companheiras, buscando nelas uma substituta para a mãe — alguém que o acolha, o compreenda, o devote, mas que também o aprisiona. Quando a parceira deseja, exige ou se mostra diferente da imagem materna idealizada — elevada ao posto de santa — ela corre o risco de ser tomada como o oposto sombrio dessa mãe: a prostituta. A mulher que não corresponde ao espelho da mãe perfeita é invadida pela sombra do arquétipo materno, e sua beleza, antes desejada, passa a ser vista como ameaça. Ele se sente possuído por uma força interna que o confunde e o assusta: a mulher deixa de ser fonte de amor e passa a encarnar a sedução que corrompe, o desejo que desestabiliza, o feminino que não se submete. Nesse momento, o filho não vê a mulher — vê o reflexo distorcido da mãe que nunca pôde perder. E é nesse espelho quebrado que o vínculo se fragmenta, entre o gozo e a culpa, entre o amor e o medo. Mitos e Complexos: Édipo, Perséfone e Electra como espelhos da alma Para os rapazes, o mito de **Édipo** representa o drama da separação e da descoberta da identidade. O filho que ama a mãe e rivaliza com o pai vive, em sua psique, o desafio de sair do enlaçamento materno e encontrar seu lugar no mundo. Quando esse corte simbólico não acontece, o homem pode permanecer preso à imagem da mãe — idealizada como santa — e projetar nas mulheres o seu oposto sombrio: a prostituta. A mulher desejada torna-se ameaça, e sua beleza, antes encantadora, passa a ser vista como sedução perigosa. Ele se sente possuído por sua sombra, dividido entre o desejo e o medo, entre o amor e a culpa. Para **Freud**, o Complexo de Édipo é o núcleo da sexualidade infantil e da formação do superego. O menino deseja a mãe e rivaliza com o pai, vivendo uma tensão entre amor e culpa. A resolução saudável desse conflito — ao aceitar a impossibilidade do incesto e identificar-se com o pai — é essencial para o desenvolvimento da identidade sexual e moral. Freud via esse processo como universal, inevitável e estruturante. Mas **Jung**, embora tenha partido da mesma base, propôs uma ampliação simbólica. Para ele, o Complexo de Édipo não é apenas um drama sexual, mas um **mito arquetípico** que expressa o processo de individuação. O filho que desafia o pai e se une à mãe representa a busca por identidade, mas também o risco da **inflação do ego** e da **alienação da sombra**. Jung não via o complexo como universal, mas como uma manifestação possível entre muitas outras, dependendo dos arquétipos constelados na psique. Enquanto Freud enfatiza o desejo e a repressão, Jung destaca o **simbolismo do mito**: Édipo é aquele que, ao tentar escapar do destino, o cumpre. Ele é cego não apenas fisicamente, mas psiquicamente — não vê a verdade sobre si mesmo. Para Jung, essa cegueira representa a ignorância do inconsciente, e o incesto, a fusão simbólica com o feminino interno (Anima), sem mediação do masculino (Animus ou função paterna). A tragédia de Édipo, então, não é apenas sobre desejo proibido, mas sobre a **necessidade de ver** — de integrar os aspectos rejeitados da psique, de reconhecer a sombra, de romper com a mãe e enfrentar o pai como símbolo da lei, do limite e da alteridade. Para as moças, o mito de **Perséfone** fala da transição entre a inocência e a maturidade. A filha que vive sob a proteção da mãe (Deméter) é raptada por Hades e levada ao submundo — uma metáfora para o mergulho no inconsciente, na dor, na sexualidade e na autonomia. Perséfone aprende a transitar entre mundos: o da luz e o da sombra, o da mãe e o do parceiro, o da infância e o da mulher que escolhe. É o mito da iniciação feminina, da capacidade de transformar dor em sabedoria. Para muitas moças, o mito de **Perséfone** representa o momento em que é preciso deixar de ser a “boa filha” — aquela que vive para agradar, que permanece pura, dócil e ligada à mãe. Mas essa mãe, por mais amorosa que seja, muitas vezes deseja manter a filha eternamente inocente, longe dos riscos, longe do desejo, longe da autonomia. Para que Perséfone se torne mulher, ela terá que **magoar essa mãe**. Não por crueldade, mas porque o crescimento exige separação, e a individuação exige confronto. O rapto por Hades, longe de ser apenas uma violência, pode ser lido como um chamado do inconsciente: **ir ao submundo é entrar em contato com os aspectos rejeitados pela mãe**, mas essenciais à formação da personalidade. Lá, Perséfone encontra o desejo, a dor, a raiva, a sexualidade, a ambivalência — tudo aquilo que não cabia na imagem da filha perfeita. E ao retornar, ela não volta a ser a mesma: agora é rainha do submundo, capaz de transitar entre luz e sombra, entre obediência e escolha. Esse mito revela que o caminho da mulher inteira passa pela ruptura com o ideal da pureza, pela aceitação da sombra e pela coragem de decepcionar quem a queria intacta. Só assim ela pode se tornar dona de si. Já **Electra**, filha de Agamêmnon e Clitemnestra, representa a moça que permanece ligada ao pai morto e à vingança contra a mãe. Seu complexo é marcado pela idealização do pai e pela rivalidade com a figura materna. Quando não elaborado, esse complexo pode gerar mulheres que buscam homens inacessíveis ou que repetem relações marcadas por abandono e ressentimento. Esses mitos não são apenas histórias antigas — são mapas simbólicos da alma. Eles nos ajudam a compreender os dramas internos que atravessam a vida emocional de homens e mulheres, especialmente quando o amor se mistura à culpa, e o desejo à sombra. Na mitologia, **Electra** é a filha de Agamêmnon e Clitemnestra. Após o assassinato do pai pela mãe e seu amante, Electra se une ao irmão Orestes para vingar a morte do pai, culminando no matricídio. Esse mito revela uma intensidade emocional marcada por lealdade, dor e vingança — ingredientes que, na psicanálise, ganham contornos profundos. Para **Freud**, o chamado “Complexo de Electra” seria uma versão feminina do Complexo de Édipo, embora ele mesmo rejeitasse esse termo. Freud via o desenvolvimento psicossexual da menina como uma transição do amor pela mãe para o desejo pelo pai, ao descobrir a ausência do pênis e sentir-se castrada. A menina então rivaliza com a mãe, desejando ocupar seu lugar junto ao pai. Essa rivalidade pode gerar culpa, ambivalência e dificuldades na construção da identidade feminina. **Jung**, por outro lado, cunhou o termo “Complexo de Electra” e o tratou como uma constelação arquetípica. Para ele, Electra representa a mulher que permanece **identificada com o pai idealizado**, recusando a integração da mãe como símbolo da feminilidade. Essa recusa pode impedir o desenvolvimento da **Anima madura**, mantendo a mulher presa a uma imagem infantil de si mesma — aquela que busca ser escolhida, protegida, adorada, mas não aquela que escolhe, protege ou se responsabiliza. A sombra da mãe — vista como rival, traidora ou castradora — precisa ser integrada para que a mulher possa se tornar inteira. Electra, ao matar a mãe, elimina simbolicamente a possibilidade de se tornar mulher. Fica órfã de feminino, presa ao luto do pai e à idealização do masculino. Esse complexo, quando não elaborado, pode se manifestar em relações marcadas por submissão, busca por figuras paternas inacessíveis, ou rejeição da própria potência feminina. A cura simbólica exige que Electra **renuncie à vingança e acolha a mãe interna**, reconhecendo que ser mulher não é ser menos, mas ser múltipla. ️ O Caminho da Individuação Na psicologia junguiana, o processo de **individuação** é o caminho pelo qual o indivíduo se torna ele mesmo, separado das imagens parentais que o moldaram. Para que isso aconteça, é necessário que a mãe — como figura arquetípica — **saia de cena**. Não no sentido literal, mas simbólico: ela precisa permitir que o filho a perca, que deseje fora dela, que encontre o mundo e o outro. Esse gesto silencioso de separação é um ato de amor profundo. É quando a mãe deixa de ser centro — e o filho, sujeito. Quando a mãe não enxerga o filho como extensão de seu ser mas como um outro ser humano dotado de suas próprias vontades. E se a mãe não for capaz disso terá o filho a incubência de romper com o amálgama materno em busca do seu direito de existir como ser autônomo e responsável por si mesmo, abrindo mão de fazer a mãe feliz e deixar que ela sofra as consequências de suas próprias idealizações frustradas. Entender que ser filho ou filha não é sobre realizar os desejos dos pais mas antes de tudo ser capaz de desejar para fora do paraíso projetado por eles. A psicologia junguiana nos ensina que **sentir, separar e desejar** são movimentos essenciais da alma. Mães que conseguem sustentar sua própria falta permitem que seus filhos se tornem inteiros. E filhos que enfrentam o dragão da fusão materna podem finalmente trilhar sua própria jornada — com coragem, com amor, com liberdade. --- Referências Bibliográficas JUNG, C. G. ***A psicologia do inconsciente***. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. JUNG, Carl Gustav. ***A Natureza da Psique***. Petrópolis: Vozes. 1991. JUNG, C. G. ***O homem e seus símbolos*.** 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. JUNG, C. G. ***Os arquétipos e o inconsciente coletivo*.** 4. ed. Petrópolois: Vozes, 2000. --- **DANIELA DANTAS FURLANETO\ *Psicóloga junguiana - CRP 15 7957***




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