Adoção: um vínculo que se constrói no amor, na verdade e no cuidado
Postado por Roseli Vieira em 17/03/2019 19:37
Adotar uma criança é uma decisão profunda, que transforma a vida de quem adota e, principalmente, a vida de quem é acolhido. Não se trata apenas de um ato legal ou de um gesto de amor, mas de um compromisso emocional, afetivo e cotidiano. É uma escolha que pede consciência, maturidade e responsabilidade, pois não há como voltar atrás ou desistir quando surgem os desafios.
Ao adotar uma criança, a pessoa assume o cuidado integral de um ser humano em desenvolvimento. Isso significa estar presente nos momentos de alegria e nas situações difíceis, nos sorrisos e nas lágrimas, nas descobertas e nos medos. É estar disponível quando a criança adoece, quando se frustra, quando questiona, quando se comporta de maneira desafiadora, mas também quando oferece um abraço, um beijo, um “eu te amo” inesperado. A parentalidade, seja ela biológica ou adotiva, é feita dessa presença constante.
Um filho passa a fazer parte da vida de forma intensa e contínua. A rotina muda, os espaços se transformam e a sensação de estar sozinho(a) deixa de existir por um bom tempo. Esse convívio diário é o que constrói o vínculo, pois é na convivência que o amor se fortalece e a relação se aprofunda.
O amor por um filho adotivo não é diferente do amor por um filho biológico. O que sustenta esse amor não é o vínculo de sangue, mas o cuidado, a atenção, a preocupação e a responsabilidade assumida ao longo do tempo. Amar é cuidar, proteger, orientar e permanecer. A confiança, por sua vez, nasce da relação construída dia após dia, na coerência entre o que se diz e o que se faz.
Falar sobre a adoção com a criança é um ponto essencial nesse processo. A história da adoção pertence à criança, e ela tem o direito de conhecê-la. O silêncio ou a tentativa de esconder essa parte da sua vida pode gerar sentimentos de traição e quebra de confiança. Quando a verdade é apresentada de forma adequada à idade, com respeito e acolhimento, a criança tende a compreender a adoção como parte natural de sua história, sem rupturas emocionais.
Os pais ou responsáveis são a base para todos os vínculos que essa criança irá estabelecer ao longo da vida. Por isso, a relação precisa ser sustentada por sinceridade, segurança emocional e confiança. Quando a criança cresce sabendo quem é e de onde vem, ela desenvolve maior autoestima e segurança emocional.
É natural que os pais adotivos sintam medo. Medo de perder a criança, medo do vínculo com a família biológica, medo das escolhas futuras, medo do desconhecido. Esses sentimentos fazem parte do processo e precisam ser acolhidos, compreendidos e, muitas vezes, trabalhados com apoio profissional. A parentalidade não é isenta de inseguranças, independentemente da forma como o filho chegou à família.
Também é importante lembrar que dificuldades nos vínculos familiares não são exclusivas da adoção. Relações conflituosas, falta de afeto, rejeição e rupturas também acontecem em famílias biológicas. O que define a qualidade da relação não é a origem do vínculo, mas a forma como ele é construído e cuidado ao longo do tempo.
Não é possível prever o futuro de nenhuma relação. No entanto, quando o vínculo é baseado em amor, respeito, diálogo e verdade, há maiores chances de que ele se fortaleça. Uma criança que cresce em um ambiente de cuidado e acolhimento tende a desenvolver respeito e afeto por aqueles que estiveram presentes em sua história.
Adotar é, também, permitir-se ser transformado. A criança não apenas recebe amor, ela também ensina, provoca mudanças e amplia o olhar sobre a vida. Quando a adoção é vivida com consciência e afeto, ela se torna uma experiência de crescimento mútuo.